Pesquisas de neurociência cognitiva mostram que o contato com a literatura em dois idiomas na primeira infância vai além da fluência e transforma o desenvolvimento do cérebro infantil
O Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, reforça a importância da leitura desde a infância. Em contextos bilíngues, esse estímulo vai além da fluência. Durante décadas, pais e educadores temeram que o contato com dois idiomas pudesse confundir as crianças ou atrasar o desenvolvimento, mas a ciência já derrubou esse mito. Estudos em neurociência cognitiva indicam que o bilinguismo precoce está associado a maior flexibilidade cognitiva, atenção mais apurada e melhor capacidade de resolver problemas.
Pesquisas da área de neurociência cognitiva indicam que o cérebro bilíngue está em constante exercício, alternando automaticamente entre dois sistemas linguísticos, o que fortalece funções executivas como memória de trabalho, controle inibitório e atenção seletiva.
Desenvolvimento infantil:
• Crianças bilíngues desde a primeira infância apresentam maior flexibilidade cognitiva, melhor atenção e desempenho superior em leitura, escrita e matemática, segundo estudos de neurociência cognitiva
• Pesquisas da Universidade de Princeton indicam que crianças bilíngues têm maior capacidade de alteridade e de se colocar no lugar do outro e compreender pontos de vista diferentes
• A leitura compartilhada de livros em dois idiomas amplia vocabulário, compreensão auditiva, consciência linguística e familiaridade com a escrita desde os primeiros anos
• Crianças expostas ao bilinguismo precoce transitam mais naturalmente entre os dois idiomas e têm maior facilidade para aprender uma terceira ou quarta língua ao longo da vida
Para além da fluência, o que a educação bilíngue cultiva é uma relação diferente com a linguagem. A criança que cresce lendo histórias em inglês e em português não apenas amplia o vocabulário nos dois idiomas: ela aprende a habitar perspectivas culturais distintas, a perceber que o mundo pode ser nomeado de formas diferentes. Essa habilidade, chamada de consciência metalinguística, é um dos maiores diferenciais cognitivos do bilinguismo precoce.
“Quando a criança aprende a amar a leitura em dois idiomas, ela não está apenas ampliando o vocabulário. Ela está desenvolvendo a capacidade de ver o mundo por perspectivas diferentes, de entender contextos culturais distintos e de se comunicar com muito mais profundidade. Isso vai muito além do mercado de trabalho”, afirma Raquel Nazário, diretora regional da Maple Bear Brasília.
A metodologia canadense adotada pela rede Maple Bear tem a literatura como um dos pilares da formação desde os primeiros anos. O contato com livros em inglês e em português acontece de forma integrada ao cotidiano escolar, com foco não apenas na fluência, mas na fruição e na interpretação. A ideia é que a criança desenvolva uma relação afetiva com a leitura antes mesmo de dominar plenamente o código escrito, em qualquer um dos dois idiomas.
“A escola bilíngue tem uma responsabilidade dupla: formar leitores competentes e formar leitores apaixonados. E quando isso acontece em dois idiomas desde cedo, o impacto no desenvolvimento da criança é extraordinário”, reforça a especialista.

