Débito técnico virou um rombo financeiro para área de inovação

*Por Oswaldo Neto, Chapter Leader da Icaro Tech 

Os melhores talentos das equipes de tecnologia, no Brasil, costumam estar alocados para consertar problemas. Esse fato é indigesto, pois as companhias pagam caro e desperdiçam o potencial desse investimento. Os profissionais de alto rendimento gastam cerca de 13 horas por semana, ou 33% do seu tempo, consertando o passado, em vez de desenvolver soluções, segundo estudo global “The Developer Coefficient”, publicado pela Stripe. Esse número atesta que a capacidade produtiva e criativa está sendo sequestrada por um vilão que ainda não é discutido pelas gestões, porém é inevitável, o débito técnico.

Hoje, vivemos um desequilíbrio crítico no mercado. De acordo com pesquisas do Gartner e Forrester, até 80% do orçamento de tecnologia das empresas é drenado apenas para manter sistemas antigos funcionando. Resta pouco espaço, e caixa, para a inovação que o negócio realmente deveria olhar. Para entender a gravidade do problema, lidar com o débito técnico ignorando sua raiz é o mesmo que pagar apenas o mínimo da fatura do cartão de crédito. Mês após mês, a dívida cresce, os juros compostos incidem e, em pouco tempo, o impacto financeiro sai do controle e vira uma bola de neve.

O débito técnico é um imposto invisível sobre cada nova iniciativa da companhia. O estudo Global Technology Leadership Study 2026, da Deloitte, corrobora essa visão ao estimar que o problema já responde por uma fatia que varia de 21% a 40% dos gastos de TI das organizações. Tradicionalmente, associamos o débito técnico a um custo de retrabalho gerado por decisões táticas. Quando temos um projeto com prazo apertado ou uma urgência estratégica, muitas vezes precisamos deixar alguma reestruturação de código ou arquitetura de lado para entregar valor mais rápido. O problema é que, se isso não for revisto, a conta chega.

No entanto, há um fator implacável, que é a própria evolução do mercado. Uma equipe altamente qualificada, utilizando as técnicas mais recentes hoje, inevitavelmente também acumulará débito técnico amanhã. A tecnologia evolui em uma velocidade tão absurda que os sistemas envelhecem por gravidade. Ou seja, o débito técnico é inerente a quem trabalha com TI. Não se pode simplesmente varrê-lo para debaixo do tapete. Como a essência de toda empresa hoje está na tecnologia, seja no controle de vendas, na contabilidade ou no core business, o tema tornou-se gargalo universal.

Porém, a IA também evoluiu a capacidade de mitigar esse problema. O primeiro passo é não permitir que o débito técnico seja invisível para a gestão. É preciso considerar a resolução dentro da capacidade produtiva das equipes. Outro ponto é não subestimar práticas fundamentais desde o “dia zero”, como testes rigorosos e Segurança (DevSecOps). Identificar e mitigar falhas durante o desenvolvimento é infinitamente menos custoso do que lidar com vulnerabilidades e bugs em produção.

Ordenar a fila de débitos trará dinheiro instantaneamente
Quando utilizamos agentes de IA para apoiar qualquer trabalho, observamos um ganho de produtividade, mas há uma mágica para utilizar esse benefício para pagar a dívida técnica. A Inteligência Artificial libera a capacidade criativa do time, e o próprio ganho de produtividade financia o esforço da resolução, permitindo que CIOs modernizem sistemas legados sem a necessidade de solicitar novos orçamentos, por exemplo. O ROI é acelerado porque a IA identifica os problemas em velocidade recorde, permitindo atacar os pontos de correção mais fáceis primeiro.

Em projetos recentes focados em resolução de débito técnico com apoio de IA, já registramos ganhos de eficiência da ordem de 75%. O modelo funciona de maneira colaborativa, a Inteligência Artificial analisa um sistema legado ou um código antigo, compreende as dependências e sugere a migração para versões mais modernas. A IA não atua sozinha, ela necessita de um co-piloto humano que entregue o cenário mastigado para a chancela de um desenvolvedor. O humano revisa, aprova e o ganho de velocidade é exponencial.

A verdade inconveniente, porém, é que é quase impossível zerar o débito técnico, justamente pela velocidade frenética da inovação. E o objetivo nem deve ser esse, mas sim a governança. Ter um modelo de gestão que olha de frente para o débito e mantém a fila sob controle é o que impede que o seu caixa seja impactado. Quanto mais tempo demora para resolver o problema, mais complexa e cara fica a fatura.

Ao mudarmos a mentalidade, deixando de enxergar a correção de sistemas legados como um fardo financeiro para encará-la como um processo contínuo de liberação de capacidade criativa, agora potencializado pela Inteligência Artificial, devolvemos à TI o seu papel de protagonismo. A tecnologia deve funcionar como o motor do crescimento de uma companhia, e não ser refém da operação. Afinal, se a maior parte do orçamento e o brilhantismo dos melhores talentos estão presos no passado, quem é que está construindo o futuro da sua empresa?

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